23 abril 2010

Contribuição do Jofir! Obrigada!

A GLOBALIZAÇÃO E O HALLOWEEN

Vivemos um irreversível processo de globalização, que estreita as fronteiras sócio-político-econômicas e muda as práticas culturais, gerando uma fragilidade nas certezas do conhecimento e criando uma nova realidade, um novo estilo de vida com novas formas de relacionamento interpessoal.
Esse contexto histórico mundial, de gestação de uma sociedade global interdependente, formada de estratos culturais heterogêneos, tem, ao lado de potenciais avanços positivos (como a extraordinária força libertadora decorrente da universalização de conhecimentos), certos aspectos que causam perplexidade, dentre os quais destaco, aqui, o problema da massificação das culturas populares como parte de um processo de luta pelo poder.
A luta pelo poder na incipiente sociedade global interdependente nada tem a ver com dinheiro ou com aparato militar. A nova forma de poder reside na posse dos códigos de informação e imagens de representação em torno dos quais as sociedades se estruturam e as pessoas constroem suas vidas e decidem seu comportamento. A disputa pelo poder, portanto, é hoje uma batalha ininterrupta e silenciosa pelos códigos culturais da sociedade, que se encontram na mente das pessoas.
Sob essas novas condições, em que as sociedades dominantes, mais articuladas e aparelhadas, expandem seus impérios culturais, é preciso (re)construir uma identidade cultural de resistência, uma identidade defensiva baseada na cultura brasileira.
Bem por isso, não posso deixar de desprezar a comemoração do halloween, contra a qual luto vigorosamente. Fato recente em nosso país, o halloween (que, na verdade, surgiu na Irlanda) chegou aqui através da grande influência da cultura norte-americana. O Halloween, irrefletidamente impulsionado e difundido ad nauseam pela Mídia, está se alastrando por todos os recantos do Brasil, minando nossa cultura e desconstruindo nossa identidade.
Não estou sozinho nesta luta. No ano de 2003, a revista Nova Escola fez uma pesquisa questionando se as escolas deveriam comemorar o halloween e mais de 75% dos pais foram contra. Em virtude da pressão de inúmeros brasileiros que, como eu, defendem que o “dia das bruxas” deveria simplesmente ser esquecido, em 2005 foi oficialmente criado, em caráter nacional, o Dia do Saci, comemorado exatamente em 31 de outubro.
O propósito manifesto da instituição oficial do Dia do Saci na mesma data do halloween foi diminuir a influência norte-americana em nosso país e valorizar a nossa cultura, pois temos um folclore muito mais rico (saci-pererê, curupira, boitatá, boto, negrinho do pastoreio, cuca, lobisomem, iara, mula-sem-cabeça, etc.).
Convém ressaltar que a (re)definição de uma identidade de resistência não tem nenhuma relação com nacionalismo ou fundamentalismo, mas com a auto-preservação do nosso povo, na medida em que o embrião da nova sociedade mundial está sendo gerado nos campos da batalha pelo poder da identidade cultural.Além da questão da lógica do poder na sociedade informacional, também há outros aspectos relevantes a considerar.
Todo projeto construtivista tem o elogiável escopo de formar adultos pensantes, criativos, com espírito crítico, pois o que define o ser humano não é apenas saber o que se está fazendo, mas substancialmente saber por que se está fazendo algo. Assim, convém indagar: porque celebrar o halloween? O que acrescenta ao conhecimento evocar criaturas macabras, aprender a estória de Jack-o-Lantern ou usar fantasias assustadoras? Que valores estamos transmitindo às crianças que ameaçam “doçura ou travessura”? Qual a ética subjacente à cultura americana do “Trick or Treat”?
O halloween valoriza um comportamento que praticamente exclui qualquer possibilidade de cultivo de relações éticas, na medida em que propõe o lema: faça o que eu quero ou lhe faço uma maldade. Vê-se que a “moral” do halloween é justamente o oposto do fundamento ético universal, o imperativo categórico de KANT (que sugere que façamos aos outros o que gostaríamos que todos fizessem).
A comemoração do halloween no Brasil é a celebração da mediocridade e do culto à massificação, que permite a manipulação fácil das pessoas influenciáveis. Não se constrói uma intensa consciência crítica com base em "modismos", notadamente quando a “moral da estória” é: posso realizar meu desejo de qualquer modo, posso até obter o prazer - do doce - através do susto, da força, do medo ou da coação.
PLATÃO, dizia que, na escola, as crianças deveriam primeiro aprender a controlar seus desejos, desenvolvendo a temperança, para depois incrementar a coragem e finalmente trabalhar para atingir a sabedoria. Para ARISTÓTELES, essa espécie de "pedagogia" para o desenvolvimento das virtudes, pressupõe a preocupação de incentivar bons hábitos, “que induzam quem aprende a gostar e a desgostar acertadamente, à semelhança da terra que deve nutrir a semente”.
Esta educação para a ética obviamente nada tem a ver com o Fred Krugger, Jason, Drácula e o utilitarismo barato do “Trick or Treat”, mas se baseia em atividades que fortaleçam a auto-estima e cultivem as virtudes, especialmente a fraternidade, a tolerância, a compaixão, a igualdade, a amizade, o amor e a convivência harmoniosa com a natureza, para devolver ao ser humano o sentido de sua dignidade e de seu indispensável caráter sagrado.
Só assim estaremos formando adultos críticos e criativos, habilitados para participar positivamente da vida da comunidade.Para que possamos nos olhar no espelho desta estranha realidade histórica sem susto e, sobretudo, sem medo de não gostar da imagem refletida.
Jofir Avalone Filho

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