30 março 2010

Excelente texto!


CUIDADO FRÁGIL (Revista Cláudia/março 2010)


De olho no futuro, mergulhamos nossas crianças numa infância árida, em que todo sentido de realização ficou adiado para o amanhã. O problema é que, longe de resultar nos adultos encantadores, inteligentes e competentíssimos que idealizamos, essa atitude pode levar a uma geração apática, egoísta e imatura. Suzana Lakatos e Fábio Mello
Uma nação de fracos. É isso que a jornalista americana Hara Estroff Marano prevê para o futuro nos Estados Unidos – um cenário reconhecido também por psicólogos e educadores brasileiros. Por fracos, entenda-se uma geração que está crescendo sob a tutela excessiva dos pais, incapaz de suportar frustrações e acostumada a se achar merecedora de todas as facilidades que puder arrebanhar em nome do sucesso pessoal. Como efeito colateral, mostra-se socialmente inepta e temerosa de correr riscos e inovar. Para Hara – articulista de comportamento que colabora com publicações conceituadas, como a revista Psychology Today e o jornal The New York Times -, o fenômeno é um tiro no pé para os pais, que, com um planejamento minucioso do que julgam melhor para o futuro dos filhos, suprimem a espontaneidade da infância em nome das habilidades presumivelmente necessárias para suas crianças serem vencedoras.
Endossada por renomados especialistas americanos, a tese de Hara virou um livro supercomentado (A Nation of Wimps, Ed. Broadway, ainda sem tradução para o português). A diferença entre o que ela descreve e o que especialistas vêem no Brasil, é apenas a escala, já que nossa classe média é menor. “Os pais têm a falsa noção de que a felicidade dos filhos está vinculada ao êxito profissional, mas os estudos mostram que ela depende da percepção de um sentido para a vida”, afirma a pedagoga Telma Vinha, professora da Unicamp e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral da Unesp de Rio Claro (SP).
A fórmula do insucesso
Pais perfeccionistas dedicam-se a desenhar um futuro perfeito para os filhos. Assim, a criança deixar de ter uma vida real para se transformar no projeto minuciosamente arquitetado de um adulto. Para realizar esse ideal, ela é colocada na melhor escola, pratica dança, esporte, cursa inglês, faz artes, aprende música – sempre sob o olhar atento de professores, babás e especialistas, preocupados em mostrar serviços e manter o pequeno ocupado. Até nas festas infantis, clubes e hotéis, há sempre a monitoria de um adulto. Não sobra tempo para o ócio, a brincadeira descompromissada, a fantasia e a interação espontânea com outras crianças. “’É um modelo invasivo de cuidado que prolonga a dependência e resulta em jovens tensos e irritados”, afirma Telma. Nessa estufa, há pouca tolerância para os erros. Os pais tendem a interpretar os insucessos do filho como falhas de seu planejamento e se apressam em buscar soluções e justificativas como se derrotas e frustrações não fossem parte da vida. Se a criança tira nota baixa, pressionam a escola. Se o filho vai sistematicamente mal, chegam a forçar diagnósticos que possam render algum tipo de vantagem condescendente para ele. O menino Roberto, 8 anos, é um exemplo. De uma família de alto poder aquisitivo, ele não fazia as provas, ignorava as aulas e tinha inúmeros comportamentos inadequados. Diagnosticado pela escola como hiperativo e com transtorno de déficit de atenção, ele iniciou uma terapia e logo se percebeu que o problema era o excesso de tarefas, carência afetiva e falta de convívio com outras crianças. A solução? Brincadeiras com amigos, horários para fazer lição e liberdade para escolher as atividades extras. Bastou esse “remédio” para reverter à situação.
Crianças para sempre
Na adolescência, os prejuízos tornam-se ainda mais nítidos. “Tem aumentado o número de universitários que procuram nosso centro de psicologia. Eles não aprenderam a resolver problemas na infância e ficam deprimidos aos notar que não sabem dar conta de nada, isso pode ser o gatilho de transtornos psiquiátricos mais graves”, alerta a psicóloga Sandra Leal Calais, professora de pós-graduação do Instituto de Psicologia da Unesp de Bauru. Esse sentimento de impotência levou o jovem Paulo, 19 anos, a buscar atendimento psicológico. Aluno brilhante, ainda está em tratamento para vencer a tristeza que se abatei sobre ele quando entrou na faculdade. Afinal, passos importantes como esses dependem de uma vivencia anterior que tenha incutido a noção de que é possível resolver problemas. “Não é algo que se ensine, mas que se permite vivenciar. Senão, o resultado é um indivíduo fraco, incapaz de lutar por seus projetos. Ou que, inversamente, reage tornando-se autoritário e competitivo ao extremo, como aqueles que são alçados à liderança sem a devida maturidade. O cenário para as próximas décadas é preocupante”, analisa o psicólogos Hélio Deliberador, pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias da PUC-SP.
É aí que toda a sociedade pode sair perdendo. Ilhados no próprio meio, muitos desses jovens desconhecem a cidade em que vivem e os problemas do cotidiano. “Dá medo das decisões que virão a tomar quando assumirem o comando social – não tanto pelo desconhecimento do outro”, pondera a antropóloga Ana Lúcia Pastore, professora da Universidade de São Paulo. Ela acha assustador, por exemplo, que juízes cada vez mais jovens vindos desse mundo fechado decidem questões que eles só conhecem pelas telas. Mas não precisa ir tão longe. Mesmo em atividades sem implicações sociais tão diretas, os filhos desse modelo individualista começam sem implicações sociais tão diretas, os filhos desse modelo individualista começam a ser questionados. Bem-informados e polivalentes, eles apresentam competências e diferenciais que nenhuma geração possuiu. “Mas também são arrogantes e imediatistas. Receberam dos pais muito mais do que alguém precisa para uma formação saudável e querem que tudo aconteça do modo deles, inclusive os relacionamentos profissionais”, diz a psicóloga Suzy Zveibil, de São Paulo, amparando-se numa pesquisa sobre estagiários e trainees realizada no final de 2009 com 100 gestores.
Deprimidas, solitárias e emocionalmente analfabetas. É alto o preço que as novas gerações estão pagando por não vivenciar na infância o erro, o arrependimento, a fantasia. “Se não tiverem a chance de superar pequenas rejeições desde cedo, de que modo nossos filhos aprenderão a lidar como as grandes rejeições da vida adulta, como perder o emprego ou ser trocado pelo parceiro por outro amor?”, pergunta Telma.
A mãe da IDEIA
Hara Estroff Marano vive em nova York, nos Estados Unidos, e é mãe de dois jovens. Ela falou com CLAUDIA sobre o que chama de “falta de fé na criança e no mundo”.
Sua “nação de fracos” é um fenômeno individual ou social” ? É geracional. Os pais que estão aí são os primeiros a criar o filho em uma economia globalizada, imprevisível. Estão ansiosos com o futuro e, por isso, investem pesadamente nas suas crianças. O problema se origina nas classes média e alta, mas seus efetivos vão mais longe, pois elas estabelecem padrões sociais.
Em que outros países esse problema ocorre? Ocorre em qualquer lugar onde exista classe média que possa se dedicar ao futuro dos filhos. Na Suécia, por exemplo, os pais superprotetores são chamados de curling, em referencia a um jogo em que é preciso tirar a neve da frente antes de cada jogada – na analogia, esses pais vivem prontos para remover obstáculos do caminho dos filhos. O tema tem alta receptividade também no Brasil (muitos brasileiros contatam a autora pelo site www.nationofwimps.com).
Como isso prejudica a criança e a sociedade? Sem aprender na prática que pode superar erros e conviver com a frustração e o fracasso, os jovens passam a viver na defensiva e tornam-se também maus líderes, porque não sabem lidar com riscos, crises e conflitos.
Mas porque os pais põem os filhos em uma redoma? Porque eles não tem noção das conseqüências de isolar a criança das vicissitudes da vida. Educar requer pais com sabedoria e autoconfiança para deixar o filho falhar e aprender com essas experiências.
Para ser FELIZ
Perguntamos aos especialistas entrevistados como tornar nossas crianças mais felizes e realizadas. As saídas deles são:
É preciso desenclausurar essa geração e colocá-la em contato com os dilemas do mundo. Temos
que mexer com suas inseguranças e incertezas para que ela possa refletir, mudar, crescer, descobrir e melhorar. ANA LÚCIA PASTORE SCHRITZMEYER, ANTROPÓLOGA.
Nem sempre as coisas acontecem como queremos, e o dirigismo dos pais não garante sucesso. Os jovens devem ter espaço para suas experiências boas ou ruins, longe da tutela familiar. HÉLIO DELIBERADOR, PSICÓLOGO.
É importante a criança se realizar e aprender a valorizar o dia a dia. Ou ela poderá se transformar em alguém cuja felicidade é medida apenas pelas posses que consegue reunir. SANDRA LEAL CALAIS,
PSICÓLOGA.
Os pais devem parar de agir no presente em função do futuro. O importante é atender as necessidades do filho em cada etapa. O que nos torna humanos – e não máquinas corporativas – é amar e ser amado, cultivar sonhos e objetivos. TELMA VINHA, PEDAGOGA.

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